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Quando o diagnóstico de câncer de mama transforma também a experiência de ser mãe

Diagnóstico de câncer é difícil em qualquer momento da vida. Quando é sobre câncer de mama e envolve a preocupação com os filhos, torna-se ainda mais pesaroso. Além da necessidade de lidar com a doença, suas implicações para o organismo, exames e consultas se juntam a incerteza do futuro, as questões emocionais e a dúvida sobre o cuidado com os filhos.

Colocar tudo isso num único momento e seguir adiante em busca da cura é tarefa das mais difíceis, ainda mais num diagnóstico que chega numa fase anterior às estatísticas de maior incidência da doença. Isso foi o que aconteceu com Lauren Juriati que, aos 37 anos, com duas filhas pequenas, uma com cinco e outra com um ano de idade, precisou enfrentar todas as agruras de um câncer de mama.

Era janeiro de 2025 quando, no carro com o marido e a filha mais velha, abriu o exame e viu o diagnóstico. O momento não permitia desabar, gritar, deixar a dor fluir. Afinal, a filha no banco de trás não entenderia. Foi preciso primeiro levá-la até a casa de alguém de confiança para, a partir de então, traçar, junto ao marido, o que fazer. “Eu consigo lembrar de tudo. Tudo, tudo, tudo daquele momento em diante. Aquela sensação de frio na barriga, peso no peito, desespero, misto de sentimentos. Quando eu lembro, ainda consigo sentir tudo que foi pra mim naquele momento ter a minha filha no banco de trás. Eu ter que me manter firme, de qualquer forma, porque eu não podia me desesperar com ela no carro. Eu só virei o celular e meu marido leu e nós deixamos a Malu na casa da dinda e seguimos para tudo que tinha que ser feito. Seguimos pra Unimed, seguimos marcar consulta com mastologista, marcar consulta com oncologista, marcar todos os exames de imagem”, lembra Lauren.

Ela não se deu tempo de deixar passar. Ainda no dia do diagnóstico, já procurou a mastologista de confiança, Dra. Carolina Rosa, da Clínica Madria, com quem também começou a estruturar o tratamento. No dia seguinte, pela manhã, agilização para a colocação do cateter pelo qual receberia a medicação. À tarde, consulta com oncologista. “Para mim foi muito estranho tudo aquilo. Eu lembro de chegar em casa e, na época, a Alice, a minha filha menor, estava com um ano e um mês. Eu tinha desmamado ela há um mês. Eu fiquei no escuro, enquanto eu escutava meu marido dando banho nela, e eu não conseguia ir até o banheiro. Eu lembro disso como se fosse ontem”, desabafa.

Compartilhar o diagnóstico

Em menos de uma semana do diagnóstico, Lauren já estava com cateter e iniciando a primeira sessão de quimioterapia. Sem muito tempo para assimilar tudo de acontecia com sua própria saúde, ainda era preciso contar para a família, para as filhas. “Não existe melhor forma de compartilhar com a família. Eu simplesmente falei. Eu disse que tinha certeza que tudo ia dar certo, para os, enfim, mãe, pai, as pessoas mais velhas. Com as meninas, a conversa foi diferente. A Alice tinha um ano, então eram poucas coisas que eu podia explicar. Mas com a Malu, eu sentei antes de colocar meu cateter e conversei com ela. Eu disse que ia passar por um tratamento, que ia durar muitos meses e eu não sabia como isso ia funcionar, porque também era novo para mim, mas ela podia me perguntar qualquer coisa, que eu nunca ia mentir para ela. Também disse que logo eu ficaria 100% curada e tudo voltaria ao normal, mas talvez em alguns dias a mamãe não ia poder fazer coisas que era acostumada a fazer, talvez não conseguisse passear tanto, talvez não conseguisse brincar tanto, mas que nós íamos dar um jeito, íamos criar coisas novas, e que eu ia internar no hospital, ia colocar um cateter, que era por onde eu ia receber esse remédio, que iria me curar. Eu expliquei tudo isso, e por isso foi mais tranquilo lidar com a Malu nesse momento, explicando tudo”, conta.

O caminho para a cura

Talvez como a maioria das pessoas que precisa se submeter a tratamento por meio da quimioterapia, para Lauren o medo e o receio também apareceram. A incerteza de como seria, de como se sentiria, das reações fizeram parte desse momento. “Quando eu iniciei, vi que não era tão terrível assim, porque muitos medicamentos podiam ser usados. E, lógico, eu estava no início do tratamento, mas conforme as sessões foram passando, eu fazia sessões de quimioterapia todas as sextas, as coisas foram ficando mais difíceis. No final do tratamento, que são as quimios que a gente chama de quimio vermelha, que são as mais fortes, aí é bem complicado, bem complicado mesmo”, comenta. Apesar do receio, as náuseas não foram frequentes, mas precisou enfrentar muita dor, cansaço, insônia. Além disso, precisou enfrentar os sintomas da menopausa, que algumas vezes precisa ser induzida nesses casos, como no dela, e que traz todos os desconfortos, como fogachos e irritabilidade.

Cuidado multidisciplinar

Junto a todos os sintomas físicos, estiveram os emocionais, psicológicos. Nesse ponto, Lauren reforça como foi importante um acompanhamento multidisciplinar que incluiu esse cuidado. “É muito importante ter acompanhamento psicológico, porque é isso que nos sustenta durante todo o tratamento. Pra mim uma das falas mais difíceis no meu tratamento foi quando, num sábado à tarde, quando eu estava já na segunda sessão de quimioterapia vermelha, eu passei o sábado deitada, não conseguia levantar, e uns amigos foram passear com as meninas e trouxeram elas no final da tarde. A Malu, a mais velha, chegou e falou assim pra mim: ‘mãe, você nunca deita quando é sol, e agora já é noite, você passou a tarde inteira deitada’. Isso pra mim doeu demais, porque realmente isso, nos cinco anos dela, de fato nunca tinha acontecido. Isso dói demais, mas ao mesmo tempo também foi o que me deu motivação, que me deu força pra enfrentar cada etapa. É muito diferente quando nós temos filhos, isso faz com que nós tenhamos uma força que não sei de onde as mães tiram tanta força”, salienta.

Lauren lembra ainda de quanto é importante a reconstrução. Mas reconstruir, acima de tudo, a pessoa. “Nós nunca somos as mesmas pessoas do ano passado. Mas especificamente depois do câncer é muito complicado. Tu começa a remontar os caquinhos teus que sobraram pra tentar identificar quem é você depois de tudo aquilo. Ao mesmo tempo, pras outras pessoas, aquilo tudo acabou. A partir do momento que tu recebe que não tem mais doença, está tudo certo. Pra todo mundo a vida continua. Só que pra quem passou por esse tratamento não é dessa forma. A vida pra gente se torna muito diferente, e isso é algo que eu pretendo explorar bastante, falando como profissional de saúde mental. Mas até mesmo isso, nesse momento, passado um ano do tratamento, pra mim ainda é difícil, e é algo que eu estou conseguindo falar aos poucos”, declara.

Contudo, com todos os momentos conturbados, de busca por identificar quem é a pessoa que fica depois da doença, Lauren afirma que se surpreendeu consigo mesma, com as atitudes positivas que conseguiu ter, mas sem deixar de lado o auxílio que recebeu. “O que mais importa e é o que eu digo pra todos que passam por tratamentos, que passam por doenças difíceis, complexas como é o câncer, é que busquem auxílio, busquem uma psicóloga, busquem um psiquiatra, porque isso é o que sustenta. Quando a nossa cabeça não está legal, quando a nossa mente, quando os nossos sentimentos não estão adequados para aquele momento, o sofrimento é muito, muito maior”, explica.

Acompanhamento desde os primeiros momentos

Nos casos de câncer de mama o diagnóstico precoce pode fazer uma grande diferença para o sucesso do tratamento. Conforme Dra. Carolina Rosa, a mamografia, realizada no momento adequado e de forma individualizada, pode identificar alterações antes mesmo que elas sejam percebidas pela mulher. “E esse diagnóstico precoce faz diferença”, destaca.

Ela lembra ainda a importância de uma avaliação especial que deve ser feita por cada uma das mulheres por elas mesmas, um cuidado que devem ter com a própria saúde. “Existe algo ainda maior por trás de todos esses cuidados: a forma como escolhemos olhar para nós mesmas. Em uma rotina na qual tantas mulheres estão acostumadas a cuidar dos filhos, da família, do trabalho e de todos ao redor, reservar tempo para a própria saúde também é um ato de amor”, ressalta.

Da mesma forma que esse cuidado íntimo é importante, uma vez recebido o diagnóstico, o acompanhamento deve ser multidisciplinar. A ginecologista e mastologista Dra. Carolina Rosa explica que isso é fundamental para oferecer à mulher o suporte necessário durante esse processo. “É muito importante o acompanhamento multidisciplinar, então nessa multidisciplinaridade do tratamento do câncer de mama, as pacientes têm recomendação de acompanhamento psicológico e psiquiátrico, porque o enfrentamento da doença desde o diagnóstico até os tratamentos e posteriormente ele é difícil, então a gente precisa criar uma base de apoio sólida para essa paciente para ela se sentir segura e confiante ao longo da sua jornada”, avalia.

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