A saúde mental feminina merece atenção em todas as fases da vida. Da puberdade à maturidade, a vida da mulher é repleta de transformações. Os hormônios oscilam, o corpo muda e novas responsabilidades começam a fazer parte da rotina. Ao longo da vida adulta, a mulher também experiencia a expectativa, que ainda existe, de que ela é a responsável pelo bem-estar de todos que a rodeiam.
E como, em meio a tudo isso, encontrar tempo para si mesma? Como enfrentar os preconceitos ainda existentes e buscar ajuda para enfrentar os problemas, reconhecer os próprios sentimentos e cuidar da saúde mental? Nada disso é uma tarefa simples. Até porque existe uma certa romantização do cansaço e um senso comum de atribuir o sofrimento emocional das mulheres somente às mudanças hormonais.
Entretanto, cuidar da saúde mental é tão importante quanto cuidar do corpo e da alimentação. E essa atenção precisa acontecer em todas as fases da vida da mulher, da adolescência à maturidade. Conforme a médica psiquiatra Dra. Ana Claudia Leichtweis, da Clínica Madria, cada etapa traz questões emocionais específicas, que precisam ser compreendidas e acolhidas.
Partindo desse princípio, a atenção e o cuidado devem começar na adolescência, quando as experiências são vividas de maneira mais intensa. No início da vida adulta, momentos importantes, como decisões profissionais e ter ou não ter filhos, podem gerar ansiedade e até quadros depressivos. Se a decisão for por ter filhos, inserem-se nas preocupações a gestação e as mudanças que acompanham a maternidade, que podem trazer inseguranças, ansiedade e alterações de humor. No puerpério, período após o nascimento do bebê, as oscilações emocionais podem ser ainda mais intensas, tornando fundamentais o apoio familiar e, quando necessário, o acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
O importante, em qualquer idade, é compreender que o sofrimento emocional não precisa ser enfrentado sozinha e que existem tratamentos adequados para cada situação.
Apesar das grandes transformações do mundo, o peso maior da maternidade ainda é da mulher. É ela quem deve ter a decisão final. Na escolha por este caminho, o desafio pode começar ainda antes da gravidez. Entre exames, cuidados, testes e tentativas pode aparecer um diagnóstico de infertilidade.
No processo de tratamento, reprodução assistida ou investigação das possíveis causas, sentimentos de ansiedade, tristeza e insegurança podem ser despertados. A espera por resultados e a expectativa a cada novo ciclo podem levar a rotina da família a girar em torno disso. Por isso, a ginecologista e obstetra Dra. Lisandra Scolaro, da Clínica Madria, destaca que cuidar da saúde mental nesse processo é parte importante do cuidado com a fertilidade.
De acordo com ela, o estresse e ansiedade podem afetar o sono, o apetite, a disposição e a qualidade de vida, além do relacionamento. Tudo isso poderá tornar o momento ainda mais desafiador. Ela ressalta, no entanto, que é fundamental não atribuir à mulher a responsabilidade emocional pelo resultado do tratamento. “Mas existe algo muito importante: a infertilidade não acontece porque você está ansiosa ou estressada. E o sucesso de um tratamento de reprodução assistida não depende apenas do seu estado emocional”, destaca a médica.
Contudo, Dra. Lisandra ressalta que, nesse processo, a psicoterapia, o apoio do parceiro e da família, a prática de atividades físicas, o sono adequado e os momentos de lazer podem contribuir para o bem-estar. Uma equipe médica que acolha as dúvidas e os sentimentos da paciente também faz diferença. “Cuidar do emocional não é uma obrigação para 'fazer o tratamento dar certo'. É uma forma de cuidar de você durante um processo que pode ser difícil e exigente”, reforça.
Ela lembra que a mulher não precisa ser forte o tempo todo, nem enfrentar sozinha os desafios da infertilidade. O cuidado com a saúde emocional deve fazer parte de toda a jornada, independentemente do resultado do tratamento. “Na jornada pela maternidade, o tratamento é para o corpo, mas o cuidado precisa olhar para a mulher inteira”, ressalta.
Tão desafiadora quanto quaisquer das demais fases, a maturidade chega e com ela bate à porta a menopausa. Alterações físicas e emocionais alteram diretamente a qualidade de vida. Cansaço, irritabilidade, alterações do sono e oscilações de humor estão entre as queixas que podem surgir nessa fase. Conforme Dra. Ana Claudia Leichtweis, alguns desses sintomas podem ser confundidos com outras condições, fazendo com que a mulher demore a procurar ajuda.
Mudanças que são percebidas no dia a dia, que interferem na realização de atividades, fazendo com que coisas que antes geravam prazer não o proporcionem mais não devem ser encaradas com normalidade. A perda de interesse por atividades habituais, a falta de disposição para sair com as amigas, ler um livro ou praticar exercícios físicos são exemplos de situações que merecem atenção. “Isso não é normal, não dá para considerar isso normal em nenhum momento. Então, isso já é um sinal de alerta que precisa de ajuda, porque tem como melhorar”, alerta a psiquiatra.
Segundo a médica, transtornos ansiosos e depressivos, que podem ocorrer de forma isolada ou associada, estão entre as condições mais frequentes nos atendimentos. Embora a procura por acompanhamento psiquiátrico esteja aumentando e o preconceito diminuindo, algumas mulheres ainda sentem receio de falar sobre o assunto com familiares ou até mesmo com o companheiro.
O medo de iniciar um tratamento medicamentoso também está presente, especialmente entre as mulheres mais maduras. Dra. Ana Claudia esclarece que existem opções de tratamento para diferentes fases da vida, inclusive durante a amamentação, sempre considerando as necessidades individuais de cada paciente. Em muitos casos, o uso de medicamentos é necessário apenas durante determinado período, conforme a avaliação e o acompanhamento médico.
Após os 65 anos, outras mudanças podem trazer novos desafios emocionais. A saída dos filhos de casa, a aposentadoria e as transformações na rotina familiar podem despertar sentimentos de solidão e incerteza sobre essa nova etapa da vida. Nessas situações, manter os vínculos sociais, encontrar atividades que proporcionem satisfação e buscar acompanhamento profissional quando necessário são formas de preservar o bem-estar emocional.
A psiquiatra reforça que o cansaço persistente e a falta de disposição não devem ser simplesmente atribuídos à idade ou às mudanças hormonais. “A gente não pode normalizar esses sintomas. O cansaço não é normal. Estar cansada o tempo todo também não é. O que está acontecendo? Tem que ser investigado, tem que ser conversado”, comenta.
Além das transformações naturais de cada fase da vida, situações inesperadas, como o diagnóstico de uma doença, também podem afetar profundamente a saúde mental feminina. No caso do câncer de mama, o impacto emocional pode começar no momento do diagnóstico e acompanhar a paciente durante todas as etapas do tratamento, incluindo o período posterior à conclusão dos procedimentos.
A ginecologista e mastologista Dra. Carolina Rosa, da Clínica Madria, explica que o acompanhamento multidisciplinar é fundamental para oferecer à mulher o suporte necessário durante esse processo. “É muito importante o acompanhamento multidisciplinar, então nessa multidisciplinaridade do tratamento do câncer de mama, as pacientes têm recomendação de acompanhamento psicológico e psiquiátrico, porque o enfrentamento da doença desde o diagnóstico até os tratamentos e posteriormente ele é difícil, então a gente precisa criar uma base de apoio sólida para essa paciente para ela se sentir segura e confiante ao longo da sua jornada”, avalia.
A médica destaca que sentimentos como medo, raiva e tristeza diante do diagnóstico são respostas humanas esperadas e não devem ser interpretados como sinais de fraqueza. O acompanhamento psicológico e psiquiátrico contribui para que essas emoções sejam acolhidas e não impeçam a paciente de participar das decisões e das etapas do tratamento.
Nesse contexto, o trabalho conjunto das equipes de oncologia, mastologia, psicologia e psiquiatria permite um cuidado mais amplo, que considera não apenas a doença, mas também as necessidades emocionais da mulher. “O corpo e a mente da paciente caminhando juntas, então isso acaba facilitando muito o tratamento”, destaca a Dra. Carolina.
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